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No Dia da Saúde Mental, psicóloga dá dicas para cuidados com os jovens

A data 10 de outubro marca o Dia Mundial da Saúde Mental. Criada em 1992, pela Federação Mundial de Saúde Mental, o marco visa combater o preconceito e o estigma quanto o estado psicológico das pessoas. Além disso, alerta para a dificuldade de acesso a serviços de apoio à saúde mental.


Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que, em países de renda baixa e média, o número de pessoas com transtornos mentais, neurológicos e por uso de sustâncias sem tratamento chega a 75% da população. Os indicadores também mostram que os países destinam apenas 2% de seu orçamento em saúde para a saúde mental.


Os números já preocupavam as autoridades em saúde pública e, diante do cenário da pandemia da Covid-19, aumentaram ainda mais os receios com os prejuízos à saúde mental dos indivíduos. Isolamento, medo da doença e da situação econômica, além da ansiedade pelo desconhecido, são fatores que fizeram aumentar os casos de transtornos mentais. Pesquisa recente feita com 1,3 mil médicos de saúde mental do Reino Unido constatou que 43% deles perceberam um aumento no número de casos urgentes.


É nesse contexto de atenção com a saúde mental, em especial dos jovens, que o blog O Gabarito entrevistou a psicóloga do Colégio Dinâmico e Mestre em Educação, Ângela Dantas. Confira!




O Gabarito (OG): O que é saúde mental?


Psicóloga e Mestre em Educação Ângela Dantas (AD): Antes, o conceito de saúde mental era compreendido numa estrutura quase estática do sujeito. Hoje nós concebemos o conceito de saúde mental no seu lado biopsicossocial. Não que não tenhamos aspectos orgânicos, mas hoje é importante a gente analisar o contexto em que esse sujeito está inserido, bem como a fase de desenvolvimento em que ele se encontra.


Nesse sentido a saúde mental é compreendida como um equilíbrio dinâmico da pessoa em suas várias significações. A saúde mental deixou de ser compreendida somente como a ausência de doenças e problemas mentais, mas é a percepção e consciência do sujeito em sua capacidade social ou coletiva de solucionar, modificar e intervir sobre todos os sentimentos e percepções das relações vividas. Quando falamos em saúde mental, estamos falando sobre como esse estamos lidando e como essas relações estão influenciando na nossa saúde.


OG: E de que forma as relações interferem na saúde mental das pessoas?


AD: Hoje, trabalhamos a saúde mental principalmente na forma de se relacionar na nossa contemporaneidade, como ocorrem as relações, como elas se estabelecem. Temos uma complexidade intensa e vulnerável para que o sujeito lide com essa relação e o valor dele próprio, de um processo constitutivo familiar e social saudável.


OG: Especialmente no caso dos jovens, há uma preocupação do impacto das novas tecnologias na saúde mental?


AD: Nesse mundo tecnológico das redes temos que tomar conhecimento de como isso pode fazer parte da vida da gente e não a gente fazer parte disso. Acredito que o vínculo afetivo é a base, o ar que temos para poder rever a sanidade. A saúde mental é afetiva, emocional, cognitiva-intelectual, físico-motor, é a espiritualidade. Ela perpassa por tudo isso.


Estamos vivendo um momento em que é importante prestar atenção aos sinais de alerta que essas crianças e adolescentes dão. Na infância, eles não sabem necessariamente expressar seus sentimentos verbalmente, mas temos uma representação desses sentimentos, expressados por comportamentos, como perda de sono, inquietude, agressividade, impulsividade e alimentação irregular. Nesses sinais, elas podem estar revelando os sintomas do que vivenciam emocionalmente. As crianças que vivenciam os jogos, as redes e as telas sem uma orientação ficam mais vulneráveis a vivenciarem esses sentimentos que não dão conta de expressar.


Já o jovem, o adolescente, muda o comportamento quando está vivenciando em sua base alguns conflitos. O que se espera de um jovem saudável é que ele tenha partilha social, desejos, atividades com seus grupos. Quando percebemos um jovem com isolamento social, sem desejo de conhecer ninguém, que não compartilha, isso nos preocupa. E os jovens que passam dias e dias diante de computadores com jogos, cada vez mais vão se distanciando dessa essência de conhecer outras pessoas e atividades, de pertencimento a um grupo, de compartilhar suas relações diretas com família e grupo de amigos. Se um jovem não quer se divertir ou parte para um ato de rebeldia intenso que rompe com as estruturas formais, requer do adulto avaliar isso de forma mais próxima, de preferência com um profissional.


OG: E de que forma podemos auxiliar esse jovem?


AD: É fundamental que esse jovem se sinta acolhido. Hoje a incidência da organização desse mundo psíquico é muito intensa com o hedonismo, o consumismo e o narcisismo. Quanto maior a partilha, que ele possa falar sem medo de como será recebido. É preciso acolher a dor dele.


Esse jovem também tem que ter acesso a atividades nas quais ele possa explorar sua expressividade. Isso é feito no Colégio Dinâmico em atividades como artes, teatro, pintura e esportes. Também temos que incentivar, como no Colégio, os trabalhos de solidariedade e voluntariado. Temos que valorizar aspectos em que o jovem se sinta humanizado, para se responsabilizar com atos humanizados.


OG: E no contexto da pandemia, como lidar com a saúde mental das crianças e adolescentes?


AD: Em especial neste contexto em que a as crianças e jovens estão gerando ansiedades sem ter onde descarregar essas energias, é um momento em que poderíamos estar alicerçando os vínculos familiares. O adolescente, por exemplo, tem a condição social do grupo limitada, então no âmbito da família ele tem que encontrar alguma satisfação. Por isso, acredito que seja um período para potencializar e estreitar relações, explorando melhor os momentos juntos promovendo a interação entre os membros familiares em atividades como jogos de tabuleiro e preparar uma refeição juntos.

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